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‘O crime organizado não está na favela, está no Estado brasileiro’, diz Hélio Luz, ex-deputado e ex-chefe de Polícia no Rio


Depois de uma vida que o levou do Banco do Brasil à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, passando pela prisão de alguns dos principais traficantes da capital fluminense nos anos 1990, aos 72 anos, Hélio Luz Tavares caminha tranquilo pelas ruas de Porto Alegre e diz que agora “só vê as coisas da arquibancada”. “É uma das coisas que a gente ganha com a idade. Só quero observar”.

Gaúcho, “nascido no Moinhos de Vento”, numa casa com pai fiel ao PTB de Getúlio Vargas, ele voltou à Capital há quase 15 anos para viver com a família. O sotaque carioca, porém, segue carregado. Hélio Luz ainda conhece o Estado colocado sob intervenção militar federal pelo governo de Michel Temer (MDB) como um cirurgião que decora os movimentos do bisturi na véspera do corte.

No ano em que o Brasil sofreu um golpe militar, ele se tornou escriturário do Banco do Brasil. Dez anos depois, chegou ao posto de delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro e, na metade dos anos 1990, com o governo do tucano Marcelo Alencar, tornou-se chefe. Foi ele o responsável pelas ações que prenderam Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, do Comando Vermelho, e Marcio Nepomuceno, o Marcinho VP do Complexo do Alemão.

Quando se aposentou da Polícia, se elegeu deputado pelo Partido dos Trabalhadores. O mesmo partido que ele deixou em 2002, antes de Luiz Inácio Lula da Silva ser eleito presidente pela primeira vez, alegando “divergência política intransponível” com a governadora do Rio, Benedita da Silva.

No dia em que Hélio encontrou com a reportagem do Sul21 para uma entrevista em um café, a prisão de Lula já havia sido decretada e a expectativa era saber se ele se entregaria ou não à Polícia Federal, como havia determinado o juiz Sérgio Moro. Alguém que coletou assinaturas para a criação do PT, no final dos anos 1980, Hélio ri: “É um espetáculo gospel. Aliás, eles estão ressuscitando o Lula, que andava caído. O Moro, acho que ele é agente infiltrado, porque ele está puxando o Lula de volta”.

Durante pouco mais de uma hora, Hélio Luz conversou sobre política, segurança pública, o caso Marielle Franco e intervenção militar. As mesmas visões que vem defendendo desde sempre, inclusive no documentário Notícias de Uma Guerra Particular (1999). Embora hoje o homem que ganhou apelido de “xerife de esquerda” ache um pouco mais difícil afirmar com todas as letras que segue nesse campo.

“Quando você vai para o governo a qualquer preço, o preço vai ser alto e depois tem que começar a fazer alianças para se manter. Como faz aliança com Antônio Carlos Magalhães?” 

Sul21: O senhor deixou o PT em 2002, antes da primeira eleição de Lula. Na época, alegou que a decisão vinha baseada por “desvios de comportamento do partido” e “divergência política intransponível”. Com Lula preso, como o senhor vê o que aconteceu com o PT nestes anos?

Hélio Luz: O PT não foi criado para isso. Eu não participei das assinaturas do PT porque eu não podia, na época eu era delegado, mas colhi assinaturas para fundar o PT e não é esse partido. A ideia original fica muito próxima do PT do Rio Grande do Sul, mas São Paulo desviou. Os fins, mais uma vez, mostram que não justificam os meios. É uma lástima. Quando eu saí, saí porque tive uma divergência incontornável com a então governadora [do Rio de Janeiro] que era a Benedita da Silva. A corrupção é muito própria do sistema capitalista. Não é que não haja corrupção no sistema socialista, mas aqui se opera tudo com dinheiro. Então, na hora que você entra nesse jogo, se você se torna um dos operadores, ele te absorve. O PT é um grande partido de oposição. A nossa capacidade é de resistência, de enfrentamento. Você não pode se aproximar dos mesmos instrumentos querendo fazer uma revolução. Por quê? Porque a base nossa é em cima do povo, é quantidade. Essa é minha impressão: quando você começa a entrar no mesmo jogo, a tendência é perder. Porque eles já estão nesse jogo há mais tempo, já sabem trabalhar isso. Você operar com esse nível de aliança que foi feito… Eu tenho muita dificuldade disso, entende? Eu tenho 72 anos, sou velho. Na minha época, não queria papo com udenista (União Democrática Nacional, opositora de Getúlio Vargas), sou um anti-lacerdista nato. Quando você vai para o governo a qualquer preço, o preço vai ser alto e depois tem que começar a fazer alianças para se manter. Como faz aliança com Antônio Carlos Magalhães? Não acredito nisso. Você não faz aliança com adversário que não tem nada em comum.

Sul21: Apesar disso, como o senhor avalia a condução do processo contra Lula e a prisão?

Hélio: Quando vejo esse negócio, o que eu vejo é que ressuscitaram o Lula. Ele já estava em uma fase de declínio, começou a ter dificuldade dentro do próprio partido (eu não estou no partido, mas vejo sinais), de repente, [Sérgio Moro] chegou com a condução coercitiva e levantou o Lula. Agora está repetindo a mesma situação. Acho que o Moro é um agente infiltrado, porque não pode haver melhor coisa para o PT (risos). Ele vai botar o PT no governo. Isso é uma coisa bem do Brasil. Como um cientista político explica isso lá fora? É uma porra-louquice geral. A Constituição de 1988 foi uma Constituição cidadã, Ulysses [Guimarães] tinha razão. Com isso, a classe média foi ao paraíso e tomou o Supremo Tribunal Federal. Hoje, ele tem uma composição de classe média. Eles batem cabeça, não sabem operar, fica muito próximo ao que é o PT no governo. Eles se atrapalham com o exercício do poder.

Sul21: O senhor se identifica como uma pessoa de esquerda, apesar dessa crise política?

Hélio Luz: Antes era mais fácil, agora está difícil (risos). A tendência, com a idade, não é que venha para o centro, mas você começa a perceber mais o conjunto, a ter uma visão mais ampliada. Você vai para o 28º andar e enxerga mais. É lógico, o que pensava antes, você continua pensando. Em um país como o Brasil, em que a concentração de renda é muito forte, a desigualdade é violenta, é difícil você não ter percepção disso e não ser instrumento político permanente para reduzi-la. Não sei se isso te coloca à esquerda, mas você tende a ir para esse campo. Que não é o campo do mercado. Por isso que eu vejo com dificuldade, quando você vai para o governo e opera alianças num campo contrário. O meu problema é que tenho 72 anos, eu fiz campanha do General Lott. As empreiteiras não foram criadas nem na ditadura, elas foram criadas por Juscelino Kubitscheck, quando fez Brasília. Dentro desse conjunto, esse país evoluiu muito. Eu falo para as minhas filhas: esse é um país que eu nunca imaginei que fosse viver. A classe média está tomando o Estado. Essa conjuntura, essa conturbação que existe é normal. Porque os até então beneficiários do Estado estão sendo colocados ao lado. O BNDES não faz mais financiamento dos estancieiros do sul. Falo tranquilo porque sou de Porto Alegre, nascido no Moinhos de Vento, então fico tranquilo de falar. Pessoal todo que acumulou dinheiro aqui foi em cima de patrimônio público. O fiscal do Banco do Brasil no RS tinha dificuldade, porque o dinheiro que era para comprar boi, não era comprado boi. Como pode ignorar isso? Isso reflete no Brasil todo. O enriquecimento neste país é feito às custas de dinheiro público.

“O problema do sistema penitenciário no Brasil é uma das maiores vergonhas que existe neste país. O que nós fazemos é amontoar” 

Sul21: No voto sobre o habeas corpus de Lula, com a discussão sobre prisões depois de condenação em segunda instância de fundo, o ministro Luís Roberto Barroso lembrou que há milhares de presos provisórios no Brasil, cujos processos não chegaram nem à primeira. Qual o peso que essa crise do sistema carcerário tem na pauta da segurança?

Hélio: O problema do sistema penitenciário é uma das maiores vergonhas que existe neste país. Perde para a desigualdade e o racismo. Agora somos a terceira maior população mundial de presos, mas nas condições somos o pior lugar… Não existe [como aqui]. Os Estados Unidos não têm boas condições, porque têm excesso de presos, mas não têm o mesmo nível que aqui. O que nós fazemos é amontoar. Eu lembro muito de Sobral Pinto, que na ditadura do Estado Novo pediu que Luís Carlos Prestes preso tivesse a mesma condição, pelo menos, que os animais. Temos que lembrar isso: que os presos tenham as mesmas condições que os animais. Isso já seria bom, porque está muito abaixo. Você faz uma fábrica de monstros, uma fábrica de revoltados. Não há como conciliar isso. Não sei se você consegue “humanizar” uma cadeia, acho difícil, mas não dá para ter condição subumana. Como o Estado pode manter isso?

Sul21: O senhor concorda que são essas condições que dão poder às facções?

Hélio: Isso cria em todo sistema carcerário. Aquilo é outro mundo. Em qualquer lugar da Terra, na hora que cria uma prisão, você vai criar outro universo. Eles vão chegar e como se sobrevive àquilo? A recuperação é muito difícil. Eu estive no Canadá, tem oficinas para trabalho, isso e aquilo, mas ninguém quer trabalhar. Preso não se interessa porque ele está isolado, ele se volta para o mundinho que eles criam. Isso é um problema sério e está muito acima dessa discussão se vai preso no segundo grau ou não. Eles vão presos sem ter culpa formada e ficam até o fim. Discutir recolhimento após a segunda instância está fora da realidade. É discussão de branco de olho claro.

A Defensoria Pública, o Ministério Público são avanços nesse país. O grande problema nosso é que na hora de fiscalizar, o fiscal vacila. Normalmente, a questão de segurança é voltada para quem está praticando o crime. Isso não importa. Importa como você detém a prática do crime. O Estado não está preparado. Desde o Império, ele só amontoa. Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro era uma cadeia, que amontoava escravos. Quem fazia isso? A polícia. Esse sempre foi o papel dela. Era sempre nomeado, nunca houve concurso. A partir da Constituição de 88 é que começa a ser concursado e com isso a classe média toma conta. Hoje ela detém do início ao fim, da Polícia ao STF, 80% é classe média. Ela segurou o sistema de segurança, tem responsabilidade sobre ele, mas não sabe o que faz com ele. Um PM no Rio de Janeiro ganha cerca de R$ 3 mil, mais de dois salários mínimos, ele integra a classe média brasileira. E faz a mesma coisa que fazia na época do Império. São concursados, nível universitário e não houve modificação política na cabeça do policial. Quando eu entrei na Polícia não havia PM. A PM era uma força separada. Quem fazia o policiamento ostensivo era a Guarda Civil. O problema é que não modificou a cabeça deles, que não entendem que integram uma instituição para fazer a proteção do cidadão, não do Estado. Até hoje, as polícias do Brasil inteiro são destinadas a fazer controle social.

“Discutir recolhimento após a segunda instância está fora da realidade. É discussão de branco de olho claro” 

Sul21: Essa parece que vai ser uma pauta definidora nas eleições deste ano. Por que a gente não consegue avançar nela?

Hélio: A classe média faz a antessala da Casa Grande. Ela tem dificuldade de perceber a senzala e se mantém na antessala. Na hora que abre espaço de poder, ela quer ser integrante da Casa Grande. Ela não tem percepção de conjunto, de sociedade. No movimento dos juízes e promotores de agora, a gente vê isso direitinho. A Igreja era patrimonialista, o Ministério Público e a magistratura do Brasil são patrimonialistas. Eles constroem palácios em tudo quanto é canto e com dinheiro público. A diferença de padrão de vida de um juiz na Europa é muito grande para um juiz daqui. De onde sai isso? O dinheiro é comum. Achar que você vai fazer os penduricalhos e ter auxílio-moradia, que isso não importa, que não vai ter reflexo na área de saúde e educação, não é ingenuidade porque eles passaram num concurso. É acúmulo mesmo. Na hora que a classe média chega à Casa Grande, fica na antessala querendo participar do banquete. Não tem percepção de ampliar isso. Ulysses Guimarães, se estivesse vivo, ficaria envergonhado.

Sul21: O atual governo do estado do Rio Grande do Sul, com José Ivo Sartori (MDB), deixou que o efetivo da Brigada Militar chegasse ao menor da História. Como solução, ele chamou a Força Nacional. Qual a sua opinião sobre ela?

Hélio: Quanto menor a quantidade de policial, melhor fica a sociedade. Por quê? Porque pra você fazer essa manutenção, você faz uma distribuição melhor dos bens. O grande problema é que o Estado deve estar subordinado à sociedade. Aqui no Brasil não está. A sociedade está subordinada ao Estado, o que é uma aberração. Nos Estados Unidos, pessoal fica meio com pé atrás com Donald Trump, mas ele representa a sociedade americana e ninguém se engana com isso. Ele foi eleito democraticamente e representa a vontade do estadunidense. O Estado brasileiro fica acima da sociedade brasileira, então, o interesse é de grupo não da sociedade. Se o interesse da sociedade for uma meta, você pode reduzir o nível de controle. Por que um controle interno tão forte? Não há necessidade. Eu não atuei em favelas do Rio de Janeiro só como policial, eu fui assessor jurídico da Federação de Favelas. O sonho desses meninos era ter uma carteira assinada. Hoje está difícil porque acabaram com a CLT. O Estado brasileiro parte para o conflito. O salário é baixo, a concentração de renda é forte, a desigualdade é grande. E nós acirramos isso. Aqui, desigualdade e crime tem muita relação. Quando você não tem o que preservar – e essa é a questão – você cai dentro, você parte para tudo. Eu arrisco a vida de um moleque por causa de um tênis. Não me interessa, vou usar meia hora, vou ser morto, mas morri com o tênis. O risco da vida é muito barato, porque minha vida não vale nada. A questão não é modificar o sistema de segurança, é modificar o Estado. O crime organizado não está na favela, ele está no Estado brasileiro. O Estado brasileiro é uma quadrilha. Casa Grande e classe média fazem parte disso. As forças de segurança já fazem controle social sem grade. A favela fica no morro, no RJ, na hora que eles descem, a gente cai dentro e eles sobem de volta.

Sul21: Apesar desse controle, os governos têm de fato projetos para segurança pública ou, na maioria das vezes, resolvem no improviso de crises?

Hélio: É por estatística e estatística falha. Isso é sazonal, o homicídio cai e dizem ‘tá vendo, o homicídio caiu’. Mas por que caiu? Qual foi a causa? Homicídio cai quando você recolhe arma, quando você prende grupo de extermínio. Eu fui delegado na Baixada Fluminense e, naquela época, milícia se chamava grupo de extermínio. Área do Anísio, de bicheiros, o índice de homicídios era altíssimo. Como você faz? Você prende os caras, PM, bombeiro, um monte de gente que forma a milícia chefiada por um PM. Quando reduz homicídio, você tem que dizer qual é a causa. Porque São Paulo chega e diz o seguinte: o homicídio reduziu. A troco de quê? Na época que reduziu crime na Baixada, na minha época, isso eu falo tranquilo, é porque eu arrecadava as armas que estavam lá. Não arrecadava só revólver, mas faca, tudo. Era complicado, teve nível de arbitrariedade, mas o objetivo maior era acabar com homicídio. Essa tem que ser a proposta de um sistema de segurança: acabar com crime de sangue. O resto não é problema de polícia. Ou você resolve com responsabilidade civil ou com o Ministério da Saúde. Aí voltamos ao sistema prisional. O Estado brasileiro tem que reconhecer que ele não tem competência para fazer combate ao que chama de droga. Isso não é vergonhoso, porque nenhum Estado até hoje teve. Por que vamos ser pretensiosos de achar que aqui vai dar? É um jogo de faz-de-conta. Caindo na realidade, o que deveria ser feito no país? Qual a responsabilidade do Congresso? Não importa a questão de entorpecente, ela é questão de saúde, como foi o cigarro. Eu fumei muito tempo, hoje em dia quase não se vê ninguém fumando. A sociedade modificou sem nenhuma repressão. Eu não sei quem está por trás disso, mas a mesa de câmbio da Rio Branco, no Rio de Janeiro, opera para o traficante. Aquilo é negociado em dólar – e não vem me dizer que dólar corre no mercado paralelo e não afeta. Afeta a mesa de câmbio de todos os bancos, sim. Na mesa de câmbio circula o dinheiro do tráfico. Só não fala isso quem não conhece.

“Essa tem que ser a proposta de um sistema de segurança: acabar com crime de sangue. O resto não é problema de polícia” 

Sul21: Um dos fatores que contribuiu para aumento de presos é a Lei de Drogas de 2006.

Hélio: O que a polícia tem com isso? Isso é problema da família, de saúde.

Sul21: Essa alteração da lei, que pretendia descriminalizar o usuário, mas que deixou nas mãos dos policiais definir que quantidade diferencia um usuário de um traficante…

Hélio: Eu conheço um caso, no interior do Estado do Rio, em que um guri foi preso com 700 gramas de maconha e a juíza disse que era uso. Um moleque do morro é preso com duas trouxinhas e é traficante. A polícia exerce esse papel desde o Império. Na hora que acabar com essa questão de tráfico de entorpecente, que não é problema de segurança, você esvazia, na pior das hipóteses, 50% da cadeia. E já resolve um grande problema nesse país e volta o sistema de segurança para a função dele: a garantia do cidadão.

Sul21: Isso tem a ver com o ciclo das polícias? Com ter a Polícia Militar fazendo policiamento ostensivo, enquanto a Civil fica com a investigação?

Hélio: No Brasil, na situação atual, se integrar as polícias você vai ter um problema. Quanto mais reduzido o número de policiais, mais controle você tem. Polícia tem que estar sob controle, assim tem um serviço mais consequente. A Polícia Federal é menor, você tem um controle melhor e ela dá resposta. Essa mesma PF, no Rio de Janeiro, foi muito corrupta. O nível dela há 20, 30 anos, ela conseguia ser mais corrupta que a polícia estadual.

Sul21: O que mudou?

Hélio: Não sei. Primeiro que eles têm um efetivo menor. Falo de percepção de fora. Mas mudou, assim como a Polícia Rodoviária Federal, nos últimos dez anos. Boa parte por causa dos salários. Eu, vindo do Banco do Brasil, aprendi isso: funcionário bom é funcionário bem pago. Alguém com bom salário, entra na condição de cidadão e você tem uma sociedade mais equilibrada. A polícia não faz a função dela que é dar segurança para o cidadão. Você não quer ser molestado na rua ou ser assaltado, você quer andar tranquilamente, parar no ponto de sinal e não ter esse risco. É esse nível que se espera da polícia. Mas não temos isso.

“O mais difícil é o governante não participar do esquema. Porque dinheiro é fácil, dinheiro vem e você não precisa correr atrás dele” 

Sul21: Como alguém que conhece bem o Rio de Janeiro, como o senhor viu o assassinato da vereadora Marielle Franco?

Hélio: A impressão que eu tenho é que ela sacudiu uma casa de marimbondo e não sabia que era uma casa de marimbondo. E a casa caiu. O atual chefe de Polícia do Rio [Rivaldo Barbosa, empossado pela intervenção federal] é um bom investigador. Ele conhece homicídio, sabe investigar. Ele tem condição de apurar isso. Antes havia suspeita de um segundo carro na cobertura, quando havia isso era muito mais complicado.

Sul21: Pelo que o senhor conhece, dá para ter uma pista de envolvimento de milícias?

Hélio: É bem provável. A gente não sabe no que ela tocou, qual foi a casa de marimbondo que ela sacudiu. Isso que deve estar sendo investigado. Talvez ela nem tenha percebido que tocou alguma coisa que… Quando você chega ao Rio de Janeiro, tem uma calçada cheia de ambulantes. Se você chegar e colocar sua mercadoria ali, você não fica, porque vai chegar alguém e dizer ‘meu irmão, rapa fora’. Para botar as mercadorias ali tem que pagar para alguém e, normalmente, tem um policial por trás disso. É dificílimo não ter. Se não pagar, não fica. Se insistir, vai para a vala. Isso é hábito do Brasil. Nosso sistema de segurança se acostumou com isso. Eu não vou generalizar, mas no Rio de Janeiro é assim. Como [a PM de lá] é mais antiga, tenho a impressão que ela fez escola. Difícil que tenha um crime no Rio que não tenha envolvimento de policial.

Sul21: Como é trabalhar em meio a essa corrupção tão internalizada no sistema?

Hélio: A primeira coisa é não participar. O mais difícil é o governante não participar do esquema. Porque dinheiro é fácil, dinheiro vem e você não precisa correr atrás dele. Você não participar disso é que é muito difícil. Às vezes, ele vem de forma indireta e aí que fica difícil resistir. Na hora que você não participa, o pessoal já fica alerta.

Sul21: Não fica mal visto? Como na história de Serpico (policial que enfrentou corrupção na polícia de Nova York, que inspirou filme de 1973)?

Hélio: Não. Isso é só em filme. Se você não leva dinheiro, problema seu, sobra para os demais. Esse negócio de que se não leva é ameaçado, pode até ocorrer, mas não é a regra. A regra é: você não quer dinheiro? Problema seu. O grande problema são os mocinhos, o bandido é fácil. Você ter controle do bandido é a coisa mais fácil que existe. Os homens de bem é que são o maior problema desse país.

Sul21: Por quê?

Hélio: Porque o crime organizado nesse país é feito pelos homens de bem. Eles se interligam, um protege o outro. O sistema está voltado para isso, a estrutura do Estado está toda voltada para isso, é difícil dar enfrentamento. Se você conseguisse chegar a romper por cima, você teria reflexo na ponta. Acabar com uma boca de fumo é a coisa mais simples que tem. Eu sei e todo mundo sabe. Não existe um fuzil na mão de um moleque que tenha sido feito à margem. Quando a Colt faz um fuzil, ela não deixa sair outro por fora. Ela tem controle total de tudo que fabrica. Eles até são vendidos para o mercado paralelo, mas isso é outra questão. O fuzil que para na mão de um guri, na favela do Rio de Janeiro, tem percurso oficial, não vem por contrabando do Paraguai. Isso é cascata. Ele sai dos Estados Unidos com nota fiscal, são armas oficiais. A Taurus aqui do RS, todas as armas dali são faturadas. O mercado de armas é fortíssimo e oficial. Ter controle do menino que está na ponta é fácil. O difícil é hierarquia do Estado não participar do custo do fuzil que foi entregue para ele.

“Na hora que bota um tanque na favela está fazendo controle social, porque 95% das pessoas são trabalhadores” 

Sul21: O senhor criticou a decisão da intervenção federal militar no Rio de Janeiro. Prestes a completar dois meses, ela ainda não tem um plano apresentado.

Hélio: Eu não estou discutindo se ela é constitucional ou não, porque se formos discutir questão de constitucionalidade, o presidente [Michel Temer, MDB] é golpista. Como você vai discutir constitucionalidade dentro de um golpe? Não dá, é regime de exceção. Mas, já que o golpe está aceito, a intervenção é prevista na Constituição. O Comandante do Comando Militar Leste tem toda a condição de mexer na estrutura policial, porque ele tem toda a informação da Segunda Seção que sabe quem leva e quem não leva dentro da polícia. Eles já fazem isso há muito tempo, há mais de 30 anos. Ele até acertou na escolha do chefe da Polícia Civil e no comandante da Polícia Militar. Como ele implementa isso? Ele tem dificuldade porque o Exército não foi feito para isso, ele foi preparado para o inimigo externo. Na sociedade existem infratores, mas não inimigos. Aí surge alguma dificuldade, porque o tratamento que ele faz – e é onde ele cai na vala comum – ele começa a fazer controle social. Na hora que bota um tanque na favela está fazendo controle social, porque 95% das pessoas são trabalhadores. Por que não faz isso exatamente onde pratica o crime? Se ele colocar o tanque no Leblon, na frente da casa do Sérgio Cabral (ex-governador, MDB, preso), faria mais efeito. Os chefes do crime moram na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Sul21: E a questão de ter o Comandante do Exército, General Villas Bôas, pedindo para “não haver risco de uma nova Comissão da Verdade”?

Hélio: Eu vou dizer para você que tive muito receio quando eles ocuparam o Complexo do Alemão e tenho até hoje. Como eles não conhecem muito bem esse terreno, tenho receio… Não sei se perde a guerra, mas uma batalha o Exército pode perder. Se partir para dentro mesmo, para valer, eles correm muito risco. E aí, chama quem, depois que chamou o Exército e não deu certo? E não estou falando que não deu certo no setor operativo, no administrar. Não dá certo como Força.

Sul21: O que seria esse “perder a guerra”?

Hélio: Um soldado, no Complexo do Alemão, pode [se ver contra] 150 a 200 homens com fuzil na mão, bem treinados e que conhecem o terreno. Se entrar uma companhia do Exército ali pode ser trucidada. Essa é a questão. Esse é o grande risco. Não é guerra civil, mas perde no campo, é algo muito próximo de uma guerrilha. Se chegarem a nível de enfrentamento, vai ser um banho de sangue, porque vai morrer muito inocente. É melhor não testar não e nós ficarmos só na referência. O tanque na beira da favela é perda de tempo.

Sul21: Uma série recente da Netflix, O mecanismo, gerou polêmica ao colocar a história da Operação Lava Jato em uma interpretação distorcida, mas ela reforça a ideia de que a solução para a crise está fora da política. Nas mãos da PF e do Judiciário, neste caso. O que acha disso?

Hélio: Se fosse assim tão simples… E não é. É o mesmo problema: os mocinhos. O Ministério Público, a magistratura e a Polícia Federal são os mocinhos. Lá dentro o nível de deterioração que existe, talvez, seja pior que na favela. Por quê? Eles agem de forma que nem percebem o que é um auxílio-moradia e acham que porque está na lei é justo. E não é. Eles cometem injustiça todos os dias, eles acirram a separação da sociedade todos os dias. Quando a gente acumula nesse país, estamos participando da desigualdade, estamos tirando de quem precisa. Eles não têm essa percepção. Eu entendo quando o MP fica próximo de jejum e oração. Pelos meios normais, pela investigação eles não vão chegar a lugar nenhum. O que deixa de ser corrupto é educação e entender que patrimônio público não pode ser abocanhado por ninguém.

Site SUL 21

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